No consultório, todos os dias, a função da psicóloga Ariane Severo é ajudar casais com problemas a superar suas crises, inseguranças e medos. É dessa experiência que nasceu a ideia de escrever um livro que falasse a todos os públicos sobre a complexidade do casamento, do namoro, enfim, dos prazeres e agruras que é viver a dois. E assim nasceu Encontros & Desencontros: a complexidade da vida a dois, que já está sendo vendido em todo o país pela editora Casa do Psicólogo. Na publicação, um diagnóstico do amor contemporâneo é feito. — A ideia é dar atenção especial e discutir a importância do reconhecimento das diferenças e à complexidade da vida a dois — destaca. Bem-estar conversou com a terapeuta, que trabalha com casais desde 1998, e atualmente está no Instituto Contemporâneo de Psicanálise, de Porto Alegre. Abaixo, a especialista fala um pouco sobre os assuntos que estarão no livro e que interessam em muito para quem busca uma vida a dois mais feliz e plena. Confira a íntegra da entrevista:* Os relacionamentos modernos estão fadados a não serem mais eternos?
Ariane Severo - Gostaríamos que fosse menos complexo viver a dois, que houvesse fórmulas e resoluções simples. A vida a dois, é inevitavelmente, cheia de encontros e desencontros, perturbando nosso ideal do que seria uma boa relação. O casal necessita desconstruir constantemente o casamento que tinha para poder criar a possibilidade de estarem juntos. O casamento que sobrevive à desconstrução pode ser reinventado eternamente. Do contrário, que sejam eternos enquanto durem.
* Quais os segredos para um relacionamento feliz?
Ariane - Não há receitas. Viver a dois é uma construção contínua, uma obra acabada-incacabada. Mas buscar a aceitação da autonomia do desejo do outro em cada encontro. A compreensão de que o amor há de ser considerado como um trabalho a realizar-se não só pelo encontro, senão, precisamente pelo que produzem a partir do desencontro, ajuda.
* Muitas pessoas se sentem culpadas dentro de relacionamentos frustrados. Porque a culpa muitas vezes faz parte da relação do casal?
Ariane - Penso que um dos motivos é a idéia que temos do que deveria ser uma boa relação, a idéia de cara-metade, a outra metade da laranja. Uma idéia de complementaridade. "Conviver com o outro, construir família, configuram o elenco das obrigações sagradas."
* Casais homoafetivos enfrentam os mesmos dilemas que os heterossexuais? A questão do preconceito, influencia no relacionamento?
Ariane - Eles enfrentam os mesmos problemas. Viver a dois é imprevisível, turbulento, fragmentado, descontínuo e provoca rupturas diárias. O outro, por sua simples presença, produz um deslocamento. Também existem dificuldades específicas de cada par, de cada família, de cada cultura. A construção do casal é sempre complexa. Alguns casais precisam enfrentar a diferença de cor, de idade, de nível cultural ou econômico, religião, e outros o fato de serem homossexuais. Não considero a diferença sexual como patologia. Um casal heterossexual pode ter um funcionamento perverso.
* Apesar do apelo à individualidade e ao sucesso profissional, que exige tempo livre e poucos vínculos e problemas pessoais, as pessoas continuam procurando um parceiro. Por que isso é tão importante, por que não gostamos de ficar sozinhos?
Ariane - Por necessidades narcísicas e pela nossa condição inicial de desamparo, nos construímos na relação com o outro, na intersubjetividade. Precisamos de um outro que nos afirme continuamente. A própria identidade sexual se define e se sustenta no encontro com o outro. A presença é necessária, e sua imposição questiona nossas ações, pensamentos e nos coloca em uma nova subjetividade. "Vida solitária só se consente aos deuses e animais".
Fonte: http://www.clicrbs.com.br/especial/rs/bem-estar
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